#Palavras do Pai

Fogo e água #99

Sinto vergonha. Hoje caiu um temporal em Lesvos. O dia demorou mais a amanhecer e o céu estava completamente cinza.Há poucos minutos choveu granizo. Muitas das barracas onde a maioria dos refugiados vivem alagou pela chuva que não cessa desde ontem. Foram destroçados pela força da água barracas, cobertores, sacos de dormir e tudo mais. Das poucas coisas que eles possuem, a que podem chamar de casa estava inundada. Poucos dias após o incêndio, experimentamos um quase dilúvio. Reconstruímos o que o fogo destruiu para reconstruirmos (de novo) o que se foi – e ainda está indo, porque a chuva não parou – pela água. Nesses meses de inverno, o frio não tem folga e venta muito! 

É difícil manter o sorriso no rosto quando nos deparamos com tanto sofrimento; soa como uma afronta pra quem não consegue sorrir também. Pode parecer uma analogia tonta, mas a chuva é somente a gota d’água.

Passadas as oito horas de trabalho, eu volto pra hospedagem. Molhada, mas tendo algo quente pra vestir. Cansada, mas podendo tomar um banho e ir pra cama. Com saudade, mas com a certeza de que a qualquer momento, se eu precisar, posso voltar pro meu país. Sinto vergonha porque meu sofrimento não se compara ao deles. Neste momento em que escrevo estou debaixo das cobertas suficientemente aquecida, mas minha mente não sai do campo pensando em como estão os moços que tiveram suas barracas inundadas e naqueles que tem pensado em voltar pro seu país porque creem que viver a guerra é melhor do que o campo. Sinto vergonha. Nós, voluntários, passamos algum tempo servindo aqui, algumas semanas ou meses, mas pra eles, isto representa suas vidas (e alguns cogitam tirá-la).  

Como em muitas situações da vida, temos dois lados. Refugiados retribuem suas palavras carinhosas e te abraçam (principalmente as crianças!), outros lamentam a todo tempo. Hoje revi um senhor que chegou tem pouco tempo e que de alguma forma conquistou meu coração. Não trocamos muitas palavras além de um pedido pra que ele esperasse um pouco mais por sua barraca e desejei-lhe um bom dia hoje, mas ele disse “não tem como ter um dia bom aqui”. De qualquer forma, eu fiquei feliz em poder vê-lo mais uma vez. Ontem eu queria comida e uma criança me trouxe um café com leite. Hoje descobri onde outra mora durante a minha escala e ela sorriu pra mim. Parece pouquíssimo, mas me passa a sensação não de dever cumprido, mas de que tem valido a pena. O que eles me fazem sentir, mesmo que sem saber, é o que desejei transmiti-los também. A que sorriu está grávida (como tantas outras no campo). Vai ter um menino, mas vivia enfezada por onde quer que andasse. Pra quem vive contente, o sorriso é natural. Pra quem sofre é um milagre! Ela não está satisfeita, isso é visível, mas sorriu! E isso pra mim é uma vitória!

Sinto vergonha quando ouço os gritos revoltados porque não temos roupa suficiente pra todos os que já estão aqui ou chegando. Sinto vergonha quando eles reagem de forma agressiva ao nosso não ou quando eles pensam mal de nós porque mesmo fazendo o que está ao nosso alcance eles ainda precisam de algo mais.  A culpa não é deles! Não são culpados pela guerra, pela busca de refúgio, pelas crises financeiras, corrupções políticas ou pela perseguição. (A você que pensa que todo refugiado é imigrante econômico ou político, eu te convido pra passar alguns dias por aqui. Na Grécia, na Itália, no Brasil, Alemanha… Temos um sem-número deles espalhados ao redor do mundo pra você conhecer a fundo quem tanto critica.) Conheça suas histórias, traumas, alegrias e frustrações (tente). Sinta na pele suas dores.

Este ano, quando começamos a fazer a peça “Sobre si” pela Companhia Jeová Nissi em todo o Brasil, nunca imaginei que fosse viver na pele isso. Não me comparo a Jesus porque não estou de fato experimentando o sofrimento do outro ao nível máximo como Ele fez, mas estou compartilhando das suas dores. Tento escrever, mas estou profundamente introspectiva a respeito de tudo. Não consigo separar muito bem o que vi do que vivo. Ao me aproximar do outro ao ponto de sentir suas dores, me aproximo do Filho que padeceu. Muitos deles ainda não se consideram filhos de Deus, mas como Paulo afirmou, eles também “são entregues á morte todos os dias”.

Se nada tiver mudado neles enquanto estive perto, eu sei que mudou em mim.  Não sou corajosa ou merecedora de qualquer tipo de honra ao mérito por estar aqui, o que me moveu – e precisa te mover – a fazer algo, mesmo que aparentemente inútil diante do caos, foi o amor. À Deus, acima de todas as coisas, que me faz amar aos homens. Sinto vergonha e impotência.  Precisamos ajudar quem tem fome, sede e está nu. Precisamos ajudar quem é forasteiro em terra estranha. 

Aos refugiados que nunca lerão meus relatos, peço perdão, my friends, porque eu não posso fazer por vocês o que merecem. Perdão por todos os “sorry”, “we dont have”, “yo no tengo” e todas as outras expressões em árabe, farsi, francês ou curdo que dissemos pra vocês. O que podemos fazer é absurdamente pouco. Sinto vergonha. 

Pra pegar roupas, fazem filas atrás de grades. Pra pegar comida, novamente. Pra entrar no campo são as grades do portão. Como se já não bastassem todas as grades que a vida os impôs! Pra quem pensa que a vida é você quem escolhe/faz, o êxodo desesperado em busca de socorro mostra que não! Nem todos são donos de suas oportunidades. Sua liberdade foi tirada, mesmo não estando numa prisão. 

Poucos de nós suportaríamos viver em uma barraca. Poucos bens, sem muita independência ou privacidade, sem closet, roupas novas, variedade de sapatos, banheiro individual ou muitas opções de lazer pra espairecer. Não tem colchão ou travesseiro. Não há muito espaço também. Menos do que os primeiros suportariam viver nestas condições. Há quem viva há 10 meses!!! Sinto vergonha, porque penso ser desumano. Hoje soube de refugiados que voltarão para sua terra natal porque consideram viver aqui pior do que lá! Como suportam o sofrimento, eu não sei. Há muitos muçulmanos aqui e alguns cristãos também; de um jeito ou de outro, o deus em que colocamos nossa fé nos levaram pro mesmo lugar, mesmo que em posições diferentes.

Sinto vergonha. Mas sinto ainda mais forte uma vontade imensa de vê-los conhecendo a Deus. Pra quem conhece a Eternidade, nenhum sofrimento é vão, mas passageiro. Eu sei que alguns O conhecem, mesmo que ainda pensem nEle como um “deus desconhecido”.

Hoje o “Portas Abertas” publicou um relato de Frederick, um dos cristãos sobreviventes ao ataque á Universidade de Garisssa. Ele disse que “precisa que Deus o ajude a esquecer” e a minha oração pra ele e pra todos os que sofrem hoje é a mesma! Que Deus os ajude a esquecer do sofrimento terreno, sem esquecer as lições que aprenderam. Que eles se esqueçam dos dias maus, mas sem esquecer de onde Deus os tirou. Que eles se esqueçam, se for possível, do que sentiram em meio a dor, mas não se esqueçam de que já não lembram mais por causa de Quem os livrou! Mas que eu nunca me esqueça do que vi e aprendi com eles.

Deus me permitiu voltar pra Grécia e me fez entender que Sua vontade não é um lugar. Não se trata de um espaço geográfico, mas da convicção, mesmo sem o sentimento adequado, de que se está fazendo o que Ele planejou que você fizesse com o seu coração nEle!

Algumas pessoas linkam o cristianismo à hábitos como não fumar, não beber ou não se prostituir, mas Jesus chamou para serem seus discípulos homens que eram ladrões, mentirosos e traidores. Ele os chamou enquanto ainda eram homens maus. De fato, Ele vê de um jeito diferente. Eu sei que hoje, em Lesvos, tem muito refugiado sendo chamado por Ele! Ainda errantes, com os tais hábitos que escandalizariam a muitos crentes, mas que estão sendo enxergados por uma graça que jamais vamos entender! Alguns chamariam de injustiça, prefiro entender como amor. Só o Amor vai transformar estes capítulos tristes de sofrimento em uma história marcada por redenção!

Ainda que o choro dure muitas noites, o amanhã reluzente ao Sol da justiça há de chegar pra todos nós! Que todos os refugiados e os que tem sofrido num mundo de injustiças tenham o prazer de serem considerados Filhos! Mesmo que tenhamos os olhos cheios de lágrimas do tempo presente, fito eles e a minha esperança somente na Eternidade, para que todo aquele que sofre possa conhecê-la também! 

Bem aventurado o que sofre, porque será consolado.” 

OBRIGADA, DEUS! Eu te encontrei AQUI!

(Isadora Bersot)

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