#Palavras do Pai

O que pensa que eu sou? Se não sou o que pensou… #228

Não, não estou aqui pra falar do hit da banda Déjàvu, embora pareça :) Falo da minha trajetória na igreja, em missões, do famoso “não julgueis”, um pouco sobre o que a ação da igreja nas últimas eleições gerou nos ambientes não religiosos e esclareço algumas críticas que geralmente chegam até mim. Este post, além do que já expus, é pra fazer quem me entende mal tentar me entender melhor, ainda que discordando, e pra quem me julga mal tentar achar um equilíbrio (os críticos podem estar certos!) Amigos não cristãos ou que não estão acostumados com o linguajar “gospel”: façam valer meus esforços em tentar facilitar os assuntos referentes à igreja pra vocês!

Como este post é bem grande, sugiro que quem não quiser ler tudo escolha os tópicos de sua preferência e seja feliz! Indico o último, especialmente! O título está em azul e negrito, como esta caixa de texto.

Um desejo sincero: que estas palavras sejam acolhidas com graça. Julguem o que está escrito, não o que entenderam do que está escrito. Às vezes, há um abismo entre o que eu digo e o que você interpreta. Os comentários são livres, mas passam por moderação.

Trajetória cristã — Política x Religião | 1

Basicamente, nasci em um lar cristão e sou evangélica a vida toda. Aceitei a Jesus, me batizei na adolescência, me voluntariei em muitas áreas da igreja… E sim, ainda frequento a mesma comunidade em que esses eventos aconteceram. O foco é que estou inserida no meio evangélico brasileiro há mais de 20 anos. Mantenho meu relacionamento com Cristo e com a instituição: sei que não há lugares perfeitos nem pessoas perfeitas, eu mesma não sou uma, mas intensifico severamente minhas críticas quando se trata de política e religião numa mistura que não convém. E também quando vejo absurdos anti-bíblicos sendo pregados em nome de Deus, levando milhares ao engano.

Missões

Minha relação com o ministério cristão se intensificou quando, em 2013, aos 19 anos, eu fui servir como missionária em tempo integral em um ministério de SP. Repare: eu estava cursando engenharia numa universidade pública e decidi largar a vaga por entender que, naquele momento, havia uma necessidade de eu parar o que estava fazendo academicamente para sair pelo Brasil pregando o Evangelho. Confesso que não foi um peso ou sacrifício: primeiro, porque entendi que tinha recebido uma instrução de Deus, segundo, porque, sinceramente, eu detestava o curso! Eu estava no começo do 3º período.

Lembro-me, especialmente, de um episódio dessa vida em missão. Eu tinha 22 anos e liderava uma equipe. Quando chegamos a uma igreja no Nordeste, o pastor viu que éramos jovens (minha equipe tinha jovens entre 19 e 27 anos, se não me engano) e disse: “meninos, voltem pros estudos!” Alguns, ali, já eram formados e haviam decidido abdicar parte de seu tempo para ingressa na obra missionária. Na época, fiquei bem indignada (e ficaria, ainda hoje, por outras razões), porque eu sabia que estava onde Deus havia planejado naquele tempo. Naquele mês, em especial, ouvimos muitas vezes essas palavras.

Ataques “gospeis” — Política x religião |2

Por que exponho isso, embora já houvesse feito em outras ocasiões? Porque há gente crente que desconfie da minha conduta cristã porque não apoiei (nem apoio) o governo Bolsonaro e seus aliados. Há, em contrapartida, os não/ex crentes (entre outros grupos), que me acham “lúcida e sensata” justamente por esse motivo. Entre ambos, há a minha consciência.

Todos os ataques que recebo com relação a essa opinião, especialmente, vêm dos crentes. Faço, aqui, um parêntese importante: há muita teologia errada saindo dos nossos púlpitos. Muita! A galera não conhece o beabá da Bíblia. E não é falta de bom curso de teologia, porque há vários, até de graça, na internet. Enfim, o que digo aqui não é novidade: até os amigos não religiosos ou que professam outra fé podem concordar diante do que veem e leem por aí.

“Não julgue!”

Ouço, com frequência, que “não podemos julgar” e que “só Deus conhece o coração“, mas o apóstolo Paulo afirma que “os santos julgarão os anjos”. Ele questiona ainda: como vocês julgarão anjos sem saber julgar as coisas mínimas entre vocês? Em contrapartida, os mesmos que dizem “não julgueis” naturalmente me julgam. Não sou adepta de que o julgamento seja uma proibição bíblica ao que quer que seja e defendo que deve ser feito com equilíbrio.

Mateus 7 é “metralhado” como munição para evitar as críticas (apenas o versículo “não julgueis”, o resto a galera prefere esquecer), e Romanos 13 também foi — ainda é — uma bomba na mão dos mais radicais: “tem que honrar e respeitar as autoridades”. Estes, que vociferam com tais “argumentos bíblicos” (sejam crentes, desviados ou ateus), majoritariamente são os mesmos que xinga(va)m o PT, Lula, até a terceira geração da Dilma e que fizeram manifestações pró-impeachment. Não vou falar do golpe, mas questiono o quanto os que bateram panelas honraram suas autoridades e oraram pelos seus presidentes na última década. Dito isso, devo dizer que, geralmente, não levo suas críticas “bíblicas” em consideração.

Infelizmente, os que detém o poder temporariamente e os que foram usados como massa de manobra nas últimas eleições — embora não reconheçam, assumam, ou percebam — não enxergam a assimetria em que vivem. Sobre os tais, retomo Mateus 7: “como tirar o cisco do olho do teu irmão se você tem uma trave no seu? Primeiro, tire o do seu para depois ajudar o seu irmão”. O que Jesus dizia, então? Que não devíamos julgar? Pelo contrário: que devemos julgar com retidão, analisando primeiro a nossa conduta, para não corrermos o risco de cometermos as mesmas falhas que nos levam a condenar o nosso próximo.

Li também, especialmente nas últimas 24h: “esses que julgam não movem uma palha pra ajudar”. Os que dizem isso não estão julgando, afinal? Percebe a assimetria?

“Só vai!”

Voltando a missão e aproveitando o ensejo — e este parágrafo é mais específico para os cristãos — faço uma ressalva com relação ao marketing do evento de ontem: “só vai!”, vi escrito numa foto oficial no The Send. Contudo, porém, todavia, deixo um alerta. Note: falo como quem “foi” e como quem acompanhou e acompanha a vida de outros muitos que “foram”: “só ir” não adianta. Precisamos de capacitação e treinamento, e isso demanda mais tempo e estudo do que apenas desejo do coração. Sei que o evento se propõe a suprir tais necessidades, meu aviso é pra quem não estava e só acompanhou pelo insta ou coisas semelhantes.

Grécia

Durante o tempo em que fiquei integral em missões, cri que devia ir pra Grécia como um direcionamento divino. O que fiz? Comecei a orar e pedir para que Deus me desse entendimento do que eu deveria fazer. Você pode ver mais detalhes na #TestemunhoGrécia aqui do blog. O fato é que vivi um milagre e estive no país por 15 dias em 2015 e voltei em 2016 como voluntária num campo de refugiados.

Antes de estar no campo de refugiados, eu já havia decidido retomar os estudos, mas fazendo Letras/Grego, porque seria uma forma de eu me especializar em algo, ter uma profissão e conhecer mais da cultura, literatura e afins, que poderiam me ser úteis no país. Sigo cursando, firme e forte! #VemCanudo! Friso, novamente: capacitação é essencial. Eu vi vários missionários sendo abandonados pelas igrejas, sem cuidado, sem gente pra orar e muito menos pra investir financeiramente. Fazer missão exige suporte, estudo, mantenedor, e muita graça divina. Sem isso (e muitas outras coisas), é mais fácil morrer no campo do que resistir bravamente.

Críticos de facebook: constatação

Eu tenho esse blog vai fazer 10 (DEZ!) anos em setembro \o/ Os que criticam as minhas convicções — no caso dos que eu desconheço, mas que brotam nas minhas redes sociais quando teço críticas ao governo atual — “malemá” sabem que eu escrevo conteúdo cristão há tantos anos. Nunca leram e nunca contribuíram financeiramente. Jamais comentam ou reagem a outros posts. Mas me mandam para Cuba.

Igreja evangélica brasileira, “o mundo” e o governo Bolsonaro — Política x Religião |3

Há um posicionamento bastante danoso da instituição evangélica brasileira hoje: muitos ainda não entenderam, cegados por quem domina o poder atualmente (e pelo príncipe deste século: o Cão, que é muito articulado!), que a imagem da igreja tá péssima fora da bolha gospel e do paraíso em que vivem os eleitores do presidente. Péssima. Vejo crentes aplaudindo quando “frustram” pautas levantadas pelos LGBTQI+, pelas feministas, pelos negros, pelos espíritas etc., ou mesmo que consideram “legal” fazê-los “passar raiva”, como se “lacrar” contra eles fosse o objetivo da igreja: não é. Nunca foi. E é uma vergonha. A Bíblia afirma que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, e que a luta dos santos é contra principados e potestades, não contra carne e sangue, mas muitos atestam o besteirol teológico que tem sido pregado revelando, com tais atitudes, analfabetismo bíblico.

O que aconteceu por causa do comportamento dos evangélicos nas últimas eleições? Eu, que vivo num ambiente secular, vi 99,9% das pessoas com quem convivo que não professam a religião cristã criarem asco da igreja. Os evangélicos criaram muros, ao invés de construírem pontes. Cercaram sua bolha, ao invés de expandirem o Reino. Cerraram portas, ao invés de abrirem seus ouvidos ao clamor do que não foi iluminado pela Luz do Evangelho. No que isso resulta: surdez e apatianinguém quer nos ouvir. Não temos voz diante dos espaços públicos, a não ser que estes sejam comandados pelos “nossos” e que trabalhem para os “nossos” interesses — a bancada evangélica que o diga.

Devo lembrar de que o ensinamento do Mestre é ser luz na escuridão? Como, então, pretendem brilhar num ambiente tããão “iluminado” quanto as “panelinhas evangélicas” que frequentam? Devo lembrar de que a ordem aos cristãos é “ir e anunciar” e não “converter”?

Há uma questão séria aqui: muitos crentes estão confundido evangelismo com catequização e/ou julgando infrutíferas as pregações bíblicas que não arrebanham dezenas de fieis. Devo relembrar os meus irmãos na fé: não fomos chamados para “enfiar Jesus” goela abaixo de ninguém. Não fomos chamados para contabilizar — e nos orgulhar — (d)o número de almas salvas pelo “nosso” ministério. Não fomos chamados para desejar que o moralismo religioso se torne política pública. Não fomos chamados para fazer com que o mundo aja como os cristãos. Há tanta podridão escondida dentro das nossas instituições, mas preferimos enxergar o erro dos não religiosos do que arrumar a nossa casa: este é o tipo de julgamento que Jesus condenaria (se não viu, volta um cadinho e leia o tópico “Não julgueis”, aqui em cima). A Bíblia não aponta ou condena todos os pecados existentes, e é pra isso que serve o Espírito Santo: para nos convencer daquilo que não Lhe agrada e daquilo que nos separa de Deus. Biblicamente, os papéis são definidos: convencer não é nossa função.

Quem “só vai!” (retomando um tópico anterior) às trevas, sem se corromper? Quem encarará sair dos templos e pregar para o mundo (a saber, aqueles que não possuem a fé em Jesus)? Preciso lembrar que Jesus era odiado pelas instituições religiosas do Seu tempo? Preciso lembrar que foram os religiosos e mestres da lei que mataram o Messias? Em compensação, quem Lhe dava ouvidos? Pescadores, prostitutas, enfermos… os que eram desprezados pelos religiosos. Algo se assemelha ao nosso cenário?

Com frequência, os ensinamentos de Jesus atraíam as pessoas não religiosas enquanto ofendiam as pessoas que criam na Bíblia, os religiosos da época. No entanto, no geral, nossas igrejas de hoje não causam o mesmo efeito. Os tipos de excluídos que Jesus atraía não são atraídos pelas igrejas contemporâneas, mesmo as mais progressistas. Tendemos a atrair pessoas conservadoras, convencionais e moralistas. Os liberais e libertinos, ou os marginais e os humilhados, evitam as igrejas. Tal fenômeno só pode ter um significado: se a pregação dos nossos ministros e o serviço de nossos paroquianos não têm o mesmo efeito sobre as pessoas que Jesus tinha, então provavelmente não estamos proclamando a mesma mensagem que Jesus. (O Deus pródigo, Tim Keller)

Deixo a reflexão e alguns conselhos aos crentes do meu Brasil — eu me incluo:

Saiam da bolha gospel. Investiguem o que estão dizendo sobre nós. Ponderem: os que criticam podem estar certos. Guardem o coração. Ouçam opiniões contrárias. Orem pelos perseguidores. Discordem com respeito. Julguem com retidão. Perdoem. Promovam a justiça social. Lutem pelos pobres. Amem o próximo. Preguem o Evangelho. Não tolerem abusos de qualquer tipo. Condenem os aproveitadores e comerciantes da fé. Não sejam motivo de escândalo. Desconfiem dos poderosos. Não celebrem a frustração alheia. Consolem os aflitos. Acolham com amor. Neguem-se a si mesmos. Arrependam-se.

(Isadora Bersot)

Obs : se chegou até aqui, segue discordando ou não entende meu posicionamento, está tudo bem! Aqui se explica o título: “me libera!” 😛

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