#Palavras do Pai

“Isso é do diabo!” #251

Por muitos anos, a igreja brasileira rechaçou e tachou como maligno tudo que era diferente do que ela gostava. Tatuagem? Pecado. Música secular? Pecado. Bebida alcoólica? Pecado. Uma reflexão sempre foi necessária, mas nunca foi feita (provavelmente, pelo temor da resposta): “isso é pecado mesmo (ou seja, representa uma afronta contra Deus) ou é apenas algo de que eu não gosto?”

Ainda é comum ver esse cenário se repetindo em diversas comunidades cristãs, especialmente as mais tradicionais, e mais pontualmente entre as lideranças de adolescentes. Eu entendo o princípio: a ideia é protegê-los dos males que podem conduzi-los, de algum modo, ao inferno. É como se fosse uma tentativa forçada de livrá-los da aparência do mal.

Contudo, tenho minhas críticas particulares a essa estratégia. Não creio que essa seja a melhor forma de ensinar: primeiro, porque simplesmente não funciona (na esfera privada, ninguém vai amarrar ninguém numa cadeira pra ajudar na santidade…). Segundo, porque a proibição raramente educa. A primeira pergunta que surge a partir dos “não faça”, “não ouça” e “não veja” é “por quê?”. E é nesse momento que aparecem inúmeros argumentos e pouquíssima Bíblia — o que só revela o cerne de determinadas “regras”: achismo e gosto pessoal. Quase nunca há embasamento bíblico. Quando muito, lançam mão de um versículo fora de contexto para dar um veredito.

A permanente separação entre o sagrado e o profano é perpetuada em nosso meio: “isso é de Deus”, “isso é do diabo”. Assim, seguimos ficando para trás… Vou explicar melhor.

Na minha adolescência, era comum achar que rede social e internet levavam pro mal caminho (saiba que qualquer coisa pode levar, até mesmo a instituição igreja!). Hoje, no meio de uma pandemia e diante da irresponsabilidade de tantos, os filhos de Deus andam precisando recorrer a meios tidos como diabólicos há pouco tempo para pregar. Parece contraditório? E é! Enquanto a igreja se preocupou em dar ao inimigo o poder sobre internet, TV, sites, ferramentas, música, símbolos etc., o espaço mais amplo pra difusão do evangelho foi sendo perdido.

Hoje, vemos clipes musicais ao redor do mundo altamente erotizados, mas em que momento a igreja se preocupou em capacitar artistas pro cenário audiovisual?

Emissoras apresentam novelas que normalizam adultério e apresentam uma visão estereotipada do evangélico? Em que momento a igreja se preocupou em alcançar o cenário televisivo? Quem tá lá há séculos é que cria essa péssima imagem da gente: vendem água para curar, pedem grana pra enriquecer, vendem “o fim do sofrimento” etc.

Quantos casos de abuso de poder e de abusos sexuais estão entranhados nas igrejas? Quantos pecados e crimes foram empurrados pra baixo do tapete? Mas é mais confortável criticar as instituições seculares, né?

A militância política anseia pela legalização do aborto? E quando a igreja se mobilizou no auxílio às mães solteiras, na conscientização do que representa esse ato ou mesmo em prol da adoção? Há medidas pontuais e, infelizmente, efêmeras, que provavelmente jamais vão convencer (se continuarem caminhando a passos tão lentos) a grande massa do problema, afinal a religião só tem comunicado aos próprios religiosos, ou seja, é infértil, porque (perdoe a redundância) não alcança os não alcançados. Um grupo pequeno é selecionado, mas os que deveriam ser atraídos são repelidos com tantas estratégias atrasadas e de qualidade.

No desejo de “se separar” do que potencialmente poderia ser “pecaminoso”, os crentes perderam o contato com o mundo de modo que pudessem ser sal e luz. O fundamentalismo religioso é maligno. Enquanto seguirmos fazendo listas do que pode e do que não pode, deixaremos de falar do que mais importa: a boa nova do Deus que encarnou e morreu como sacrifício até pela vida de quem a gente detesta, discorda e condena.

(Isadora Bersot)

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