#Palavras do Pai

Feminista, eu? #259

Na escola, eu era questionadora. Sempre fui falante, relativamente destemida e amava jogar futebol com os meninos (já que só havia uma ou duas amigas que curtiam esportes como eu). Na 2ª série, ia ter uma festinha na sala e alguém disse: “meninos trazem refri, meninas, um prato”. Lembro como hoje: “Se é a mãe de todo mundo que vai fazer e/ou comprar, os meninos também podem trazer prato. Eu vou trazer refrigerante”. Eu tinha uns oito anos, e alguns, hoje, poderiam dizer que eu era feminista.

Prefiro calça/short a saias ou vestidos. Não sou lá muito vaidosa e sigo amando jogar bola mesmo mais perto dos 30 do que dos 20 (e apesar do sedentarismo). Claro que isso já foi motivo suficiente para acharem que eu era lésbica (ah, os estereótipos…). Prefiro mochilas a bolsas e não sou nem um pouco fã de salto alto. “Os homens gostam”, já ouvi muito. Mentalmente, respondo: “eles que usem, então”. Quando eu tinha uns 23 anos, ouvi: “Você nunca namorou? Algum problema há com você” (meu estado civil permanece o mesmo, mas não representa um problema). Sigo, ainda, não vendo a necessidade de sofrimento com roupas, procedimentos estéticos (meu “narizinho” que o diga!) e desconfortos em prol da moda ou das tendências sociais — que, importante frisar, mudam como a direção do vento. Diante disso, também poderiam dizer que sou feminista. Já fui chamada assim tanto como elogio quanto como xingamento (ser contra o Bolsonaro, por exemplo, proporcionou essa mesma “descrição” vinda tanto de seus apoiadores quanto de seus opositores).

Bem, eu não sou feminista (e, agora, alguns talvez respirem aliviados), mas simplificaram tanto esse (e outros) movimento que os mais “tradicionais” pensam que basta fugir um pouco dos estereótipos do que é ou não mulher na sociedade atual que já é possível nos encaixotar. Os progressistas não agem tão diferentemente — parece que paira no ar uma necessidade de definições, ao mesmo tempo em que o discurso é o da liberdade de escolha.

Também preciso dizer que não sou machista (e sei que “feminismo” e “machismo” não são termos opostos). A mulher não é menor que o homem e deve, sim, ter igualdade de direitos civis. É uma luta justa, necessária e, especialmente em nossos tempos, urgente – os casos de feminicídio, por exemplo, não param de crescer no país e não podemos de modo algum naturalizá-lo. Sabemos que, legalmente, essa igualdade existe, no entanto a prática está absolutamente distante da teoria. Para além dos casos de feminicídio, podemos analisar os principais direitos humanos previstos na Constituição, como o direito à saúde – milhares de pessoas sequer possuem saneamento básico em suas casas (“que casas?”, muitos diriam — falta, também, o direito à moradia) , muito menos atendimento médico de qualidade. Para falarmos do tema deste texto, o direito à vida existe na teoria, mas na rotina de muitas mulheres ele é violado o tempo todo! (Falaremos disso mais adiante).

Ampliando um pouco mais a questão, considero absolutamente reducionista centralizar a identidade de uma pessoa em sua orientação sexual, vertente política e/ou qualquer outra área que possa englobar a vida do ser humano (agora e no futuro). Repito o que Pedro Dulci escreve na contracapa de seu livro “Identidade e sexualidade“: “Somos muito mais do que nossa sexualidade”. Adiciono: e do que nossa ideologia política, e do que as causas que defendemos, e dos objetivos pelos quais militamos, e do que nossa religião, e do que nossa não escolha religiosa etc.

Talvez, você esteja se perguntando a essa altura: você é o que, então? Eu sou cristã (apesar de evangélica, não me defino como uma), e não preciso me autodenominar como mais nenhuma outra coisa — nem mesmo como feminista. Apesar de o discurso mais comumente difundido na sociedade brasileira hoje ser o que define o feminismo como “um movimento social que luta pela igualdade entre os gêneros”, não me vejo capaz de concordar com algumas das várias pautas que reverberam entre ele(s). Como cristã, tenho a Bíblia como um manual de fé e prática, mas não busco, por isso, transformar o mundo em Gilead (referência ao livro “O conto da Aia”) nem impor a minha fé aos que não creem: essa não é nem a minha nem a missão de nenhum filho de Deus. O chamado maior é pregar e amar. Ambas as coisas farão o que o céu quiser, não o que a minha vontade deseja.

Antes de prosseguir, ressalto duas coisas após a declaração “não sou feminista”: primeiro, não demonizo integralmente manifestações feministas porque sei que o que recebe holofotes frequentemente distorce ou apresenta uma face ínfima e maldosa do movimento, descredibilizando o suporte, as lutas legítimas e o incentivo a denúncias de opressão e violência que milhares de mulheres sofrem no país até hoje. O mesmo ocorre entre os próprios evangélicos ao serem igualados aos “representantes” (que em nada nos representam!) de alto enlevo nos espaços midiáticos — essa mesma mídia silencia e/ou apaga os milhares de exemplos de justiça, transformação social, educação, apoio aos mais vulneráveis, resgate da dignidade etc. que também estão presentes na história da Igreja.

O segundo ponto é que também não sou contra a luta por igualdade de direitos civis entre os gêneros, mas o feminismo, definitivamente, não é só isso. Se para uma pessoa se considerar cristã, ela precisa aceitar os pontos fundamentais do Cristianismo, para dizer que é feminista, ou qualquer outra coisa, não faz sentido negar pautas específicas. Eu não poderia dizer que sou cristã sem crer que Jesus é Deus, por exemplo (apesar de haver quem, erroneamente, o faça), e também não preciso me auto afirmar como cristã. A “ideia” é que o mundo perceba isso, mas não espero receber elogios, agradecimentos ou honras por essa decisão — ao contrário, o verdadeiro cristão precisa se ver como alguém chamado ao sacrifício e à rejeição (a vida de Cristo é o exemplo maior). Hoje, é fácil ver pessoas contrárias ao que entendem como “fé cristã” elogiando Jesus e reclamando do “fã clube”. Biblicamente, os fariseus são a prova de que religião não salva ninguém – nenhuma delas. Foram os religiosos que crucificaram o Cristo, mas não vou me deter nisso hoje (indico o livro “Azorrague”, do Antônio Carlos Costa).

Creio firmemente que Jesus dignificou a mulher em todo o seu ministério, mas, por conta do pecado, absolutamente tudo foi corrompido em todos os setores da sociedade (e dentro de nós também!). Em parte, creio que milhares de pessoas se definam por suas ideologias porque a Igreja se ausenta dos debates públicos e das ações de justiça que deveriam ser a sua marca – “a fé sem obras é morta”, afinal. Indico, a respeito disso, o livro “Convulsão protestante”, também do pastor Antônio Carlos Costa. Aproveitando o ensejo, como ele diria, a Escritura é a fonte mais propícia para as heresias, e, como todo texto (inclusive este que você lê agora mesmo!), está sujeito às más interpretações. A própria história da igreja relata que, em nome de Deus, muito pecado e inúmeros crimes já foram cometidos! Não é preciso ser um profundo conhecedor da fé cristã para se lembrar das fogueiras da inquisição, do pagamento de indulgências, do racismo mantido e perpetuado até hoje e de uma depreciação da figura feminina, quando pregam, entre outras coisas, uma submissão absolutamente antibíblica e machista. Não é bíblico que toda mulher seja submissa a todo homem, e ser casada não pode ser pré-requisito para haver respeito. Insisto: Jesus dignificou as mulheres, e esse é o exemplo de conduta que devemos ter. De fato, os líderes religiosos desde sempre usam a Palavra a seu bel-prazer, e lamento profundamente por isso. É estudando e se movendo socialmente que podemos mudar esse cenário tão caótico que se perpetua (inclusive) em nossas instituições.

Retomo a questão central da identidade em Cristo citando, mais uma vez, o Pedro Dulci:

Até mesmo intelectuais não cristãos já descobriram o poder titânico da afirmação do apóstolo Paulo de que a nossa identidade está em Cristo e que, por isso, não existe mais homem ou mulher, escravo ou livre, judeu ou gentio (Gl 3.29) — ou seja, distinções étnicas, distinções culturais e até mesmo as famigeradas distinções de gênero, em Cristo, foram relativizadas, pois ele é tudo em todos!

Tenho amigas feministas que são, como eu, contra o aborto, mas sei que essa é uma questão cara ao movimento, visto que há uma “ânsia” da mulher de ter poder sobre o seu corpo (desconsiderando que o bebê — e não apenas ‘feto’, nomeação que busca desumanizar uma vida — é outro corpo; mas não vou entrar nos pormenores dessa discussão aqui. Indico o livro “Contra o aborto”, de Francisco Razzo). A questão é que todo movimento coletivista vai carregar pontos que não agradam a todos, o que só gera ainda mais subdivisões (o feminismo negro é uma dessas subdivisões, por exemplo); por esse tipo de discordância é que não me intitulo como feminista, assim como não me defino como calvinista ou arminiana, de direita ou de esquerda: não me sinto à vontade para me encaixar em “imposições” sociais de nenhuma ordem, pois isso me exigiria um nível completo de concordância que jamais oferecerei. Basta-me ser filha de Deus.

Não preciso (nem você!) se enquadrar em uma (ou várias) das diversas fontes de tensão existentes entre as pessoas, especialmente em tempos tão polarizados quanto os nossos. Mas faço uma ressalva: na igreja, precisa haver espaço para que questões como essas sejam discutidas aberta e biblicamente. Enquanto essa instituição simplesmente condena um ou outro comportamento, a cultura segue arrebanhando os fieis, que, pouco a pouco, se sentem (e até são!) abraçados/engolidos por ela. Foi-se o tempo — e nem deveria ter existido! — em que bastava dizer: “é pecado!”, sem que houvesse questionamento. “É? Por quê? Quem disse? Me prova na Bíblia!”. É disso que precisamos para não sermos levados por meras opiniões que mais tem a ver com gostos pessoais do que com doutrina cristã e, frequentemente, não apresentam nenhum fundamento bíblico. A igreja precisa estar pronta a responder tais questões e a deixar de lado o legalismo infrutífero que só gera mais fariseus e menos amor!

É papel da igreja, também, repensar o papel da mulher na sociedade (podemos ir além de “esposas”, “mães” e “donas de casa”, certo? E o que dizer das viúvas? Das solteiras? Das divorciadas?), e, inclusive, ensinar os homens a não reproduzirem comportamentos machistas por conta do falso entendimento que essa mesma instituição propaga. A igreja precisa se levantar contra todo tipo de opressão feminina! A estatística de mulheres abusadas ou que sofreram violência doméstica está absurda entre as evangélicas. Isso tem que mudar, porque elas mesmas estão, muitas vezes, vendo na religião algo que as obriga a “carregar essa cruz”, a “suportar em amor”, a “perdoar irrestritamente”, ainda que corram risco de vida, isso tudo porque “Deus abomina o divórcio”! Como escreveu um dia o pastor Anderson Silva, “prefiro uma mulher divorciada do que morta”. Precisamos, com urgência, ampliar nossa visão e parar de municiar os fieis com versículos fora de contexto (ou deturpados propositalmente) que só servem para inferiorizar a mulher. Como disse há pouco: precisamos estudar! Isso implica o estudo da Palavra por meio de materiais teológicos consistentes e saudáveis. Como está escrito, perecemos por falta de conhecimento. Se a igreja não acolher as mulheres, a cultura o fará.

Com tudo isso, não pretendo adicionar peso a sua cruz, se você, que lê estas palavras, é cristão: não é porque não temos a necessidade de nos definirmos como X ou Y que não podemos concordar e apoiar pautas de X ou Y, ok? Se a esquerda ou a direita apresentam projetos políticos que vão ao encontro do que cremos ser positivo para a sociedade, não há motivos para sermos contrários a eles só porque vêm de uma ideologia divergente daquela com a qual nós concordamos mais fortemente.

Estamos caminhando para o final, e também devo dizer que não sou anti-feminista: não creio que me caiba esse papel, e não quero, igualmente, reduzir pessoa nenhuma ao modo como ela se define ou ao movimento pelo qual escolhe lutar. Devemos ter em mente algo central: independentemente das escolhas políticas, sexuais ou ideológicas, os únicos que podem fazer tais escolhas são seres humanos, todos criados igualmente à imagem e semelhança de Deus.

Fiz recentemente o Curso de História das mulheres no Cristianismo da Escola Convergência (indico, inclusive!). Nele, percebemos que muito antes da palavra “empoderada” vir à tona e mesmo antes dos movimentos feministas sonharem em surgir, centenas de mulheres aceitaram seus encargos como cristãs e se empenharam em cumprir a grande comissão das mais diversas maneiras: pregando, cuidando dos doentes, recebendo refugiados, auxiliando seus maridos pregadores, orando, compondo canções, escrevendo, cuidando de seus lares e criando seus filhos… Independentemente das proibições de suas épocas, tais mulheres não deixaram de obedecer a Deus, nem mesmo abriram mão daquilo que criam ser suas incumbências espirituais. É bem verdade que não dá para empurrar as mulheres para debaixo do tapete. É preciso, sim, resgatar suas histórias, e é tão especial que Jesus tenha ressuscitado e aparecido primeiro para uma mulher! Os Evangelhos estão repletos de histórias de Cristo com elas (indico o livro “Jesus e as mulheres”, de Sharon Jaynes). Na mesma esteira (acho chiquérrima essa expressão), também indico o episódio “Mulheres no Ministério – BTCast 360” no qual Rodrigo Bibo e Carol Bazzo discutem sobre o ministério feminino a partir do livro “Jesus, justiça e papéis de gênero: Mulheres no ministério“, de Kathy Keller.

Bem, eu não concordaria se alguém, hoje, definisse anacronicamente as mulheres citadas acima como feministas. É o mesmo que chamar Jesus de comunista simplesmente porque Ele falava sobre repartir o pão — como se o comunismo só falasse disso. Ou como se Ele fosse a favor de uma divisão de bens forçada, como se tivesse arrancado cinco pães e dois peixes das mãos do menino e multiplicado contra sua vontade (João 6:1-15). Jesus também não pegou o dinheiro do jovem rico (Mateus 19:16-24) e dividiu com os pobres; antes, deu o conselho e deixou o jovem decidir. Isso mostra bastante do Mestre: Ele aponta o caminho, mas não o puxa até ele por uma coleira.

Por início (já que este não é o fim de nenhuma das discussões que levantei), o mundo é mau. E seguirá sendo enquanto vivermos neste espaço que jaz do maligno. Não tenho esperanças positivas para a terra que não se baseiem no governo soberano e absoluto do Senhor (que em nada se compara a nenhum domínio terreno). Visto que, apesar das muitas palavras, a ideia central deste texto é apresentar a suficiência de Cristo para além de qualquer pauta terrena, indico esta canção que tem recheado os meus dias de esperança, me feito reavaliar minhas motivações e celebrar minha melhor escolha:

Espero que alguém (não tenho a menor pretensão de que sejam todos) que chegou até aqui tenha encontrado alívio nestas muitas palavras.

(Isadora Bersot) 

4 comentários em “Feminista, eu? #259”

  1. Parabens!!!! Querida menina que eu aprendi a amar por sua maneira doce de ser. Li seu artigo e digo como leiga que eu amei. Vc e autentica, verdadeira e fiel a seus principios. Me sinto como vc mesma me chama de sua tia, que prazer, e fico muito feliz por vc ter sido aluna da minha filha Prof. Roberta O Egidio. Amo pessoas que nao desistem de ser semore o melhor que Deus quer para ela. E vc e assim. Bjs. Tia Sonia O. Egidio.

  2. Achei o seu texto muito interessante. Nos faz repensar um pouco sobre nós mesmas! Eu tenho conflitos diários dia a pós dia sobre o que apoio ou não. Sou contra o aborto, porém como no caso do divórcio, acho que há uma exceção, como por exemplo o estupro. Aí me peguei pensando se o bebê que está no ventre da mulher violentada é diferente do bebê que está no ventre da mulher que engravidou sem querer? Mas como mulher, me pergunto se conseguiria criar um bebê atrás de um trauma tão grande, não só criar, como gerar tbm. São muitos contra tempo.

    1. Oi, Joyce! Obrigada por comentar! Uma questão é essa: não precisamos nos posicionar sobre tudo só pela pressão de termos alguma opinião. Antes disso, temos que estudar o que implica apoiar ou não determinada coisa. Na lei brasileira, o aborto em caso de estupro já é permitido. Bem a grosso modo, não considero que matar um bebê cure algum trauma. O filho que está no ventre de qualquer mulher, independentemente da circunstância que o gerou, é uma vida igual a outra, que tenha sido gerada em situações melhores e/ou piores. No entanto, a questão é que nós, enquanto mulheres, somos as únicas que engravidamos. Os homens fazem os bebês, mas não se responsabilizam muitas vezes. São muitos pontos a serem pensados, né?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s