#Palavras do Pai

Casamento é redenção? #265

Quem nunca leu contos de fadas cujo final feliz se dava com o casamento de uma princesa com um lindo príncipe por quem se apaixonou à primeira vista? Muito do nosso imaginário, formado desde a infância, parte da ideia de um casamento como “O” final feliz. Para além desse imaginário social, não costumamos ver nada muito diferente nas igrejas: mensagens a respeito de família e casamento são bem frequentes! Talvez, especialmente por conta dessas influências (mas não só), pessoa nenhuma considere a solteirice como uma opção viável e possível. Não raro, os solteiros são vistos dentro dos templos como “encalhados” ou até infelizes por não terem “a grande bênção” de ter alguém. É lógico que considero, sim, o casamento uma ‘coisa’ abençoada, mas ele não deve ser o fim último da vida de ninguém.

Neste ano, li o livro Garota gay, bom Deus, de Jackie Hill Perry. O assunto abordado é outro, mas há pontos interessantes para a nossa conversa de hoje. É fato que há uma “promessa exagerada em relação ao casamento ou a ênfase desequilibrada a respeito de seu lugar na vida cristã”, para usar as palavras da autora.

É provável que sua resposta à pergunta do título seja um solene “não”. Contudo, apesar do que sabemos, há várias coisas não correspondentes no meio cristão. É certo que a ‘cereja do bolo’ da história da glória de Deus que está sendo escrita culminará na grandiosa boda do Cordeiro, quando a Igreja se unirá para sempre ao Seu Amado, Cristo! No entanto, há uma imagem reforçada, inclusive dentro de nossas igrejas, de que há redenção no casamento, de que há alegria completa nele, de que toda mulher precisa se casar, de que as solteiras estão ‘fazendo algo errado’, de que os homens ‘não amadurecem’ se não constituírem família etc.

De modo algum questiono a bênção do casamento e a formação da família. Foi por meio dela que o Criador deu prosseguimento à obra de Suas mãos. Em Gênesis 1:27, quando o primeiro casal é formado, já temos o que, naqueles moldes, era o casamento. Após avaliar tudo, e tão somente após a criação de Adão e Eva, é que vemos o Senhor declarar que tudo era muito bom. Na carta de Paulo aos Efésios, capítulo 5, fica mais do que claro que há uma beleza imensurável na figura do casamento terreno, que, apesar de ser uma ‘cópia fajuta e desajustada’, aponta para a Boda do Cordeiro.

No entanto, alguém precisa dizer que o casamento não funciona como redenção nem é instrumento de plenitude nesta terra. Há apenas um redentor, e Ele se chama Jesus. Ele precisa ser suficiente para nós! Sejamos homens ou mulheres, solteiros ou casados. Sobre isso, em seu último lançamento — Rute, a estrangeira –, Lycia Barros coloca estas palavras na boca da protagonista:

Mas uma mulher não se torna mulher com a chegada de um filho ou quando arranja um marido. Somos completas quando temos o Senhor como nosso Deus e conseguimos ser aquilo que Ele nos projetou para ser. É Ele quem nos completa. Minha felicidade não está atrelada a romance, casamento ou maternidade, mas ao meu relacionamento com o meu Criador. É Ele quem dá significado à minha vida.

Não é lindo? É certo que há satisfação plena para nós, enquanto seres humanos, apenas numa pessoa: Cristo. (Sobre este assunto, indico o livro Plena satisfação em Deus, de John Piper).

Talvez você esteja procurando um(a) parceiro(a) para evitar a solidão, para saciar suas emoções, para “ser feliz”. Talvez, você queira se casar porque sonha em ser mãe ou pai. Por outro lado, talvez você tenha abominação por casamento porque teve péssimas experiências, porque viveu um abuso ou uma agressão, porque teve assustadoras referências em casa ou foi abandonado(a). O fato é que só Cristo é capaz de trazer equilíbrio para nós, ajustar nossas motivações e, inclusive, curar nosso passado. Precisamos estar disponíveis para que o Pai cumpra cada um de Seus planos em nós, e eles podem incluir projetos aos quais, hoje, resistimos.

Avalie-se: Cristo é suficiente para você, ou você ‘precisa’ de marido ou esposa, de filhos, de dinheiro, de sucesso? Estamos satisfeitos com o que temos? Podemos, assim como Davi, dizer que nada nos falta porque temos o nosso Bom Pastor? Podemos afirmar com segurança, como fez Paulo, que sabemos estar contentes em toda e qualquer situação?

É importante lembrar que desde a queda, descrita em Gênesis 3, absolutamente todas as relações humanas, e a própria criação, foram contaminadas pelo pecado. Isso inclui o casamento. O que era para seguir sendo “muito bom” acabou, para muitas famílias, virando sinônimo de sofrimento. Violência doméstica? Falta de confiança? Abusos? Traição? Vícios sexuais? Estupro? Ciúme? Aborto? Pornografia? Tudo isso pode existir nesse relacionamento que foi, no princípio, projetado pelo Deus da Paz e da Misericórdia. É impossível, sem a graça divina e a fé no Todo-Poderoso, conceber relações com potenciais tão mais perturbadores e destrutivos do que felizes — e não me refiro só ao casamento.

Como escrevi anteriormente, tudo foi afetado pelo pecado. Vivemos, como você sabe, num mundo que jaz do maligno. É por isso que devemos depender ainda mais do Senhor, pois Ele é capaz de transformar o mal em bem, a maldição em bênção. No entanto, não podemos nos enganar: até que Cristo volte e restaure todas as coisas, os riscos de experimentarmos o mal em sua forma mais vil e cruel são reais.

Apenas tendo o Senhor como âncora segura das nossas almas é que não desfalecemos, é que cremos sem ver, é que mantemos a esperança resistindo em dias tão maus; é que nos confortamos na certeza de que estamos aqui, mas que caminhamos (nós, que temos Deus como Pai, que fomos feitos Filhos dEle por Seu precioso sangue) para a Eternidade com o Senhor. Lá — e somente lá! — poderemos desfrutar do propósito original do Pai para a criação. Aqui, temos, querendo ou não, que lidar com os efeitos da queda.

“Se a nossa esperança em Cristo se restringe apenas a esta vida, somos os mais miseráveis de todos os seres humanos.” 1 Co 15:19

Retomo, agora, brevemente, a questão da solteirice: é comum que o “evangelho heterossexual” (mais uma expressão emprestada de Perry) veja no relacionamento hétero a redenção que só pode ser encontrada em Cristo! Quantas pregações já ouvimos na vida para solteiros? E para viúvos? Divorciados? Em compensação, é extremamente comum ouvirmos sobre o casamento e a constituição da família como o plano do Senhor, sem considerar que há muitos outros planos divinos para além do casamento. O próprio Cristo não se casou nem se uniu a qualquer mulher! E, ainda assim, Ele cumpriu o Seu propósito redentor.

Preciso dizer: Nem todos vão se casar. Nem todos terão filhos. Nem todos poderão dar check em suas listas de planos perfeitos originados no Céu. O foco do cristão deve ser o cumprimento de Sua missão, não a realização de seus sonhos pessoais. Jesus não lamentou Sua solteirice, afinal Sua preocupação não estava nas coisas desta terra (nem mesmo naquelas que são muito boas!), mas na obediência ao Pai. Devemos viver e agir do mesmo modo.

O casamento não é a missão final do cristão. É, sim, redenção, mas apenas quando ocorre entre Cristo e a Igreja.

(Isadora Bersot)

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