#Palavras do Pai

Banquete todo dia? Consumismo e a fé cristã #270

Já faz algum tempo que comecei a pensar sobre o consumismo espiritual desenfreado, e este texto ficou por muito tempo apenas nos rascunhos do meu celular. A partir da leitura do capítulo 5 do livro “Liturgia do ordinário”, de Tish. H. Warren, decidi registrá-lo — finalmente!

Responda com sinceridade: Você come sua comida favorita todo dia? Você vai ao seu restaurante favorito todo dia?

Provavelmente, você respondeu “não” às duas perguntas. Minha resposta seria a mesma. Vamos pensar juntos: qual é a finalidade essencial da nossa alimentação? Sem dúvidas, trata-se de uma questão de sobrevivência. Em geral, comemos para não morrer. É uma necessidade básica do ser humano. Nosso corpo precisa de alimento para se manter funcionando.

Hoje, grande parte da população mundial come não só por sobrevivência, mas também por prazer. Há uma infinidade de alimentos extremamente saborosos! Precisamos, com frequência, tomar cuidado para não tornarmos o nosso prazer um vício.

A realidade, portanto, é que não comemos um banquete todos os dias. Tirando certas ocasiões, como uma viagem especial e de curta duração, durante a qual desfrutamos de uma variedade inenarrável de alimentos diversos, cotidianamente nos satisfazemos com arroz, feijão e alguma carne e salada (no contexto nacional, claro).

Quando eu era criança, minha comida favorita era arroz, feijão e ovo frito. Até hoje, como ovo basicamente todos os dias no café da manhã. Minhas refeições não variam muito com os dias, e graças a Deus tenho pouquíssimas ressalvas para comida: como de tudo, até jiló e quiabo! rs São essas refeições simples (e que, apesar de simples, ainda são restritas para uma grande parcela mundial) que me sustentam nos meus dias, não meus hambúrgueres favoritos ou minha lasanha preferida. Eu não como um banquete todo dia, mas estou viva com minha alimentação ordinária.

Pensemos, agora, num cenário espiritual. A Bíblia afirma que Jesus é o Pão da vida. O pão é um alimento bem simples, que, mesmo nos tempos antigos, era muito utilizado. A Escritura afirma também, na ocasião da tentação de Cristo, que nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Pai. Nesse contexto, o alimento diário do cristão também é a Palavra de Deus. O Salmista já diria que seu prazer estava na lei do Senhor.

Eu me pergunto, então, por que existe uma cultura tão disseminada em nosso meio evangélico de que precisamos de cultos “extraordinários”, que precisamos viver (e fazer) milagres todos os dias, que o crente que não “vive no fogo” é frio e precisa de uma experiência sobrenatural. Estamos focados no entusiasmo, na paixão, na adrenalina.

Espiritualmente, muitos estão idolatrando as experiências em nome da veracidade e simplicidade do Evangelho real (que não é moldado por uma cultura de consumo). Como disse Eugene Peterson, existe um “mercado para a experiência religiosa no nosso mundo“.

Ressalto algo: a Bíblia relata poucos fatos a respeito da infância e juventude de Cristo até seus 30 anos. Durante esse tempo, é provável que o Filho de Deus tenha vivido uma vida ordinária como a nossa: Ele chorou, precisou ter suas fraldas trocadas, deve ter golfado, irritado seus pais ou implicado com seus irmãos. Repare: nem mesmo a vida do Filho do Homem foi marcada por acontecimentos surpreendentes por um longo período (ao menos nós não temos conhecimento disso). Será, então, que não estamos entrando na onda do hedonismo presente em nossa cultura, que nos torna servos/escravos de nós mesmos? Que exige de nós uma espiritualidade, muitas vezes, vã? Que busca experiências apenas pela glória de aparentar ser próximo de Deus? Será que não estamos querendo fazer do Espírito Santo nosso capacho? Esperamos um banquete diário, quando, na realidade, nossa necessidade primeira é “apenas” o Pão da Vida.

Tish Warren registra:

Se você me perguntasse o que eu comi no almoço de três semanas atrás na segunda-feira, eu não saberia dizer. E ainda assim aquela refeição comum e esquecível me nutriu. Milhares de refeições esquecidas me trouxeram até o dia de hoje. Elas sustentaram a minha vida. Elas são o meu pão de cada dia.

Segundo ela, a nutrição de que precisamos, humanamente falando, vem especialmente do alimento simples, “abundante e ignorável”.

É necessário nos lembrarmos disto com frequência: A vida real é simples. Monótona. Repetitiva. Necessitada de uma rotina “banal”. São pequenos atos ordinários que nutrem nossa jornada nesta terra. Nosso foco, portanto, não deve ser aquilo que vende, mas aquilo que nutre: a Palavra e o relacionamento com o Deus da Palavra. A coluna vertebral do nosso culto não pode ser a experiência individual, mas o Cristo Ressurreto.

A verdadeira adoração não se dá pelo consumo, pela experiência, mas pela espiritualidade sincera, pelo louvor ao que é Digno. Não devemos ser consumidores de uma religião, mas proclamadores do Evangelho, “mordomos da redenção”, servos bons e fiéis.

(Isadora Bersot)

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